segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CHICO MÁRIO, MILTINHO E NELSON

Um final de semana é pouco para se fazer boas coisas, aquelas que nos proporcionam alegria e felicidade.Mas, às vezes a sorte nos propicia parece um dia com mais de 24 horas, como diria Tom Zé, com 48 horas e aí se consegue o milagre da beleza pura. Foi o que aconteceu no final de semana. Em dois dias tive a alegria de desfrutar do talento de Chico Mário,Miltinho e Nelson Gonçalves. Os três, para os que amam a boa música brasileira, são um prato cheio mais sobremesa.
Francisco Mário ou Chico Mário é o terceiro irmão de Henfil, o cartunista e Herbert de Sousa,o Betinho, sociólogo que mobilizou o País e o mundo, com a campanha contra a fome, depois de seu retorno ao Brasil, em 1979, após oito anos de exílio.
Chico Mário era músico, tocava divinamente violão, escrevia com maestria e cantava encantando. Foi compositor de talento classico e popular, se destacando como um dos maiores da safra nineira da década de 70, onde despontaram também Milton Nascimento, Flávio Venturini e o maestro Wagner Tiso, este arranjador de vários trabalhos de Chico Mário. A música de Chico Mário traz uma forte raiz de brasilidade, encantando pelo toque ágil e mágico de seu violão, enquanto sua poesia é de uma beleza cortante como uma faca afiada. Chico teve grandes parceiros como o pessoal do Boca Livre e o jornalista e compositor Fernando Brandt, também seu grande amigo. Como seus irmãos contraiu AIDS, por transfusão, pois era hemofílico, falecendo precocemente, assim como Henfil e Betinho, o último a falecer.
Miltinho, um dublê de servidor público e cantor, é simplesmente genial. Cantor que interpreta brincando com a voz, sobrepondo-a depois da entrada dos instrumentos, com cacoetes, falsetes e ziriguiduns encantadores, parecendo ser um instrumento a mais
na orquestra. Seu ritmo e a voz anasalada, ficou famoso em sambas históricos como "Mulher de 30", Serenata do Adeus", "Mulata assanhada" e a genial "Rio quarto centenário".
Considerado Rei do Ritmo, Miltinho além de grande cantor de sambas, samba-canção e até boleros, é também um senhor ritmista, tocando pandeiro e outros instrumentos de percussão. É considerado, juntamente com Jackson do Pandeiro, o maior ritmista do Brasil, e sua voz inconfundível ainda é perfeita apesar dos mais de 80 anos.
Nelson Gonçalves dispensa apresentações. Genial! O melhor cantor do Brasil de todos os tempos e um dos melhores do mundo. Perfeito como intérprete, maravilhoso como compositor e privilegiado como cantor de voz única. Nelson era tão bom, que no início de sua carreira, o Rei da Voz, Chico Alves, pediu sua contratação pela Rádio Nacional.E o cara era gago, já pensou? Égua!
Suas canções são inesquecíveis, crianças, jovens e adultos conhecem porque virou uma enciclopédia da MPB. Canções como "Boemia", de Adelino Moreira, que Nelson achou muito grande mas o compositor de origem portuguesa insistiu que ele gravasse porque "violão é o maior instrumento do Brasil", foi gravada em 1956 (ufa!) e até hpje é cantada nos bares, nas festas e até em boates.Há alguns anos, era o teste para quem queria aprender violão. "Ciclone", "Meu vício é você", "Maria Betânia"
e outras centenas de músicas que embalaram o cancioneiro brasileiro por 50 anos ficaram imortalizadas na voz de Nelson Gonçalves.
Com problemas de drogas, Nelson foi ao fundo do poço, mas conseguiu superar e dar a volta por cima. Retornou e foi ícone novamente nas décadas de 70 e 80, quando gravou o LP "Ele e Elas", com cantoras como Fafá de Belém e Elba Ramalho e na de 90 gravou um CD com músicas de Cazuza, Herbert Viana, Lulu Santos, Caetano Veloso, Roberto Carlos e seu amigo Lobão. O disco ficou impecável e foi elogiado por todos, inclusive por Lulu Santos que em termos de música é chato e perfeccionista, mas tocou uma bela guitarra na faixa ""Como uma onda", de sua autoria.
Um fim de semana com tantos ícones a nos acompanhar com seus talentos nada a reclamar. Nem mais a declarar.

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