terça-feira, 20 de outubro de 2009

CONVERSA DE BOTEQUIM*

Quando os raios da manhã começaram a aparecer, sonhei.Meu saudoso amigo Ronaldo Bandeira, em um de nossos papos etílicos aparecia e tratava de todos os assuntos que gostava e conhecia: música, literatura, cinema, futebol, artes plásticas e política. O cara era fera e polemizava em todos eles, só não no futebol. Era um triste torcedor do Remo, típicos dos que torcem e sofrem (como eu pela Tuna) e sempre criticando as diretorias pelos insucessos. Bandeira era daqueles que acreditavam que os melhores papos acontecem no botequim, com uma boa cerveja e amigos que realmente se querem bem. Amigos que discutem, às vezes até alopram, mas no outro dia um liga para o outro e tudo resovido.
Lembrei de uma de nosssas últimas conversas. Observando um senhor na faixa dos seus 70 aninhos todo sagica (não tem nada a ver com o baterista), ele falou:"vou morrer assim. Alegre, falando da vida e bebendo num bar". Certa feita travamos uma polêmica, num período em que ele tinha uma coluna semanal no Diário do Pará, de onde foi editor. Dizia que o maior movimento musical brasileiro tinha sido a Bossa Nova. Era um bossanovista fantástico, louco por Nana Caymi, Nara Leão e João Gilberto. Eu, com todo o respeito, concordava em tese, afirmando que a Bossa Nova, em que pese a riqueza de ritmos, tem uma letra muito carioca e sua formação, diferente do Samba, do Tropicalismo e da MPB propriamente dita, é muito elitista, criada em um período em que os neguinhos da zona sul se reuniam em torno de muito uisque, em apartamentos de luxo, etc. Coloquei, na oportunidade, que mesmo sendo um bossanovista, o Carlos Lyra achava-a muito jazzista e descomprometida com os movimentos de esquerda que estavam surgindo, principalmente nos Centros Acadêmicos e na velha UNE do início dos anos 60. Lyra, inclusive, fez uma música intitulada
"Influência do jazz", e foi um dos que lutaram para trazer o verdadeiro Samba de Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Zé Keti e outros para o asfalto, mostrando, na época, que o pessoal que estava escondido nos casebres dos morros ou nas Escolas de Samba poderia contribuir muito para enriquecer nossa música. O que realmente aconteceu.
A noite terminou e Bandeira encontrou a solução para a contenda. "Vou te dar minha coluna da próxima semana para tu falares desse tal de Tropicalismo". Aceitei e escreví a coluna para meu querido amigo, expondo o meu amor pela Bossa Nova, pelo Samba, pelo Tropicalismo, pela MPB e... pelo Jazz. Comemoramos o resultado, obviamente, em um dos nossos botequins favoritos. Se não me falha a memória, em um "Pé sujo", como ele gostava de chamar relembrando seus tempos de Rio de Janeiro, um pequeno bar de português no centro de Belém.

*Com a licença do genial Noel Rosa , e dedicado ao meu amigo-irmão Ronaldo Bandeira.

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